Projectos de Tradução Multilingue

Trata-se de um projecto que abarca os princípios do ensino à distância e do ensino aberto, no qual os alunos trabalharam em grupo e de forma autónoma, depois de um breve sumário dos instrutores (consultores) e do cliente, ou do destinatário do produto final (uma brochura em três línguas com o objectivo de informar os futuros candidatos sobre um curso de interpretação de conferência).



Uma equipa em cada grupo terá a responsabilidade de compilar a terminologia para o projecto, enquanto outros grupos trabalharão na tradução consoante as diferentes línguas, na especificação e coordenação dos recursos para a resolução de problemas e apresentação de questões ao cliente. Os alunos terão que se reger por um horário que terá datas limite para o trabalho, todavia poderão organizar livremente o seu trabalho e as suas reuniões (se os consultores, os outros grupos, etc, concordarem com estas), tirando partido do correio electrónico e de uma ferramenta desenvolvida pelo departamento de educação que permite que o texto seja introduzido, acedido e comentado por todos os membros da equipa. O objectivo deste projecto é desenvolver métodos de ensino aberto e ensino à distância para o futuro tradutor.


INTERNATOS / ESTÁGIOS DE FORMAÇÃO

Iniciou-se um projecto piloto em Turku - um estágio de formação universitário supervisionado durante três meses numa companhia de tradução, no qual o aluno recebe créditos para o seu grau. O aluno terá que passar a certas disciplinas e redigir um contrato no qual são estabelecidas determinadas obrigações para cada uma das três partes envolvidas - a entidade empregadora, a universidade e o aluno.


O CONTRATO

O contrato estabelece as condições, especificando as seguintes tarefas do estagiário:

A entidade empregadora é responsável pela formação do estagiário, de acordo com os princípios operacionais da companhia e práticas no serviço ao cliente e no processo de tradução. A universidade verifica se são atingidos os objectivos do estagiário, que são: para o estagiário, saber em primeira mão como é que funciona uma companhia de tradução e como é que decorrem as diferentes etapas do processo de tradução; para a instituição encarregue da formação, obter uma melhor percepção da profissão de tradutor, no sentido de desenvolver a formação; e para a entidade empregadora, reforçar os laços com instituições de formação e, desse modo, contribuir para a formação, fazendo com que as suas necessidades de recruta sejam mais eficazes.


Contribuição de Rosemary Mackenzie, MA, Centro para a Tradução e Interpretação
Universidade de Turku, Finlândia
www.utu.fi

SALA DE AULAS GLOBAL

Um exemplo que retrata o problema de formar completamente, quer os tradutores que desejam trabalhar no ambiente da Internet, quer aqueles que possuem um emprego tradicional, é o curso de Técnicas de Tradução Assistida pela Internet de inglês-chinês e de inglês japonês ministrado pela Universidade do Havai no colégio Manoa Outreach. O curso, com a duração de 11 semanas, foi supervisionado pelo Dr. David Ashworth e inaugurado no hemisfério norte na Primavera de 1999. Os candidatos ao curso tinham que efectuar testes de tradução bidireccional para o respectivo par de línguas (e.x. Inglês para chinês e chinês para inglês, e o mesmo para o japonês). Os teste são efectuados em linha, através do seu bem concebido sítio Web em que o relógio começa a contar assim que o candidato abre a página de teste. Este requisito torna também impossível a participação a quem não tenha acesso à Web em chinês ou em japonês. O pessoal docente pertence ao Centro para os Estudos de Interpretação e Tradução (CITS) da Universidade do Havai em Manoa, que ministra cursos de tradução e interpretação em chinês, japonês e coreano baseados nas frequências. No Havai, as características "sui generis" dos cursos baseados na Internet incluem: (1) línguas sem conjuntos de caracteres ASCII, que, em termos de transmissão electrónica e processamento, são normalmente mais aliciantes para as comunicações em linha do que quando se verifica o contrário; (2) um preço acessível para a maioria dos tradutores por conta própria e por conta de outrém, bem como alunos a tempo inteiro nos US$ 185 e (3) são completamente globais, na medida em que os candidatos são aceites, não só pelo seu mérito, mas também pelo facto de terem passado o teste de aptidão dos serviços bilingues da informática. A primeira tarefa do curso, a de auto-apresentação, trouxe aos alunos o significado de uma sala de aulas global, uma vez que as questões colocadas surgiram de várias partes do globo, como a Austrália, o Japão, a Nova Zelândia, em Taiwan e nos E.U.A (quer continental quer o Havai). Os alunos são divididos em grupos de Chinês e Japonês, embora os seus caminhos se cruzem de vez em quando para efectuarem exercícios em que se usa o Inglês como língua comum.


CONTEÚDOS DO CURSO

O curso tem em conta que os participantes possuem um conhecimento suficiente da Internet e que são capazes de aceder a recursos necessários, bem como ler e enviar mensagens de e para os fóruns apropriados, colocados no Boletim Electrónico do curso. O curso é orientado para a prática, em que são dadas aos alunos tarefas de tradução para resolverem utilizando textos da Internet, que por sua vez são revistos com minúcia de acordo com critérios predeterminados. Antes da tradução, os alunos terão que proceder a uma análise do texto fonte (parafraseando-o inicialmente na sua língua materna) no sentido de identificar qualquer problema específico. Os textos seleccionados para analisar e traduzir, são todos actualizados e sobre assuntos de interesse, englobando certidões de nascimento, textos de cariz técnico sobre a depressão clínica, textos relacionados com o Office 2000 e textos técnicos sobre engenharia genética. As tarefas de tradução são distribuídas tendo em conta a língua materna e a língua estrangeira, embora esta seja inferior em termos de quantidade. Mais tarde é planeado um grupo de trabalho do curso e um colóquio sobre ética profissional. A página inicial do curso fornece URL (Localizador Uniforme de Recursos) úteis, incluindo dicionários bilingues em linha e matérias de referência actualizados para melhorar as técnicas de tradução. Durante o curso os alunos terão também de subscrever-se numa lista de tradutores, através da qual poderão obter ajuda para resolverem adequadamente alguns dos problemas da tradução. Em termos de tempo em linha e fora de linha, necessário aos alunos, as próprias tarefas terão que ser realizadas fora de linha, enquanto que a leitura das mensagens dos colegas terá que ser efectuada em linha. Aparentemente foram considerados os componentes em tempo real, mas a diferença do fuso horário tornou a comunicação sincrónica praticamente impossível. Os alunos necessitam de apresentar algumas tarefas, através de um boletim electrónico da Internet para esse fim, sendo o tempo da apresentação automaticamente gravado.


DICOTOMIA ALUNO-PROFESSOR

O papel do professor é, antes de mais, o de adjuvante e a relação professor/aluno não é diferente da dos cursos tradicionais. Contudo, devido à experiência adquirida no curso inicial da Primavera, este foi designado de forma a possibilitar uma maior interacção entre os alunos  funcionando como um "balão de oxigénio" à anterior e excessiva carga de trabalho dos instrutores. Em comparação com os cursos tradicionais externos, os cursos em linha oferecem "imediatez na comunicação no mesmo sentido que a do correio electrónico, sem necessidade de planear a comunicação sincrónica". De entre as vantagens que proporciona incluem-se: (1) flexibilidade do factor tempo em que os alunos se podem registar em qualquer altura; (2) os estudantes podem trabalhar ao seu próprio ritmo sem se preocuparem muito com o tempo e (3) a oportunidade de recorrer a colegas de diversos pontos do globo, bem como a listas de correio.


Contribuição do Dr David Ashworth, Universidade do Havai em Manoa
www2.hawaii.edu
Editadi inicialmente por Minako O' Hogan Phd Candidate, Universidade Victoria em Wellington, Nova Zelândia



SERVIÇO DE ENCAMINHAMENTO DE TRADUÇÃO

O Serviço de Encaminhamento de Tradução é um serviço com fins não lucrativos que decorre fora da universidade. Dá a conhecer trabalhos aos tradutores e aos alunos estrangeiros na universidade. Trata-se de uma boa oportunidade para alguns dos alunos adquirirem experiência real neste campo. É normalmente um trabalho remunerado, no entanto, não abrange os alunos do primeiro ano, uma vez que é melhor esperar até que estes sejam capazes de lidar com projectos como um do VDI/VDE acerca de aplicadores de cola para montagem de disjuntores. Os textos dados em aula são traduções actuais efectuadas no passado para os clientes. No final do semestre, DiFranco desenvolve um projecto no qual finge ser a cliente, enquanto que os alunos trabalham juntos como uma equipa de tradução. Este é o "modus operandi" da maior parte das empresas e de certa forma ajuda os alunos. A outra cadeira que DiFranco lecciona é Terminologia, que inclui aplicações de informática para os tradutores, englobando a elaboração de curriculum vitae, a construção de base de dados e de ferramentas de tradução assistida por computador. A turma trabalha com os programas Trados, Multiterm e Workbench.


Contribuição de Carla DiFranco, Professora de Tradução variante alemão/inglês, Terminologia, Tradução Assistida por Computador, Universidade do Estado de Nova Iorque em Binghamton.
www.binghamton.edu



Tradução Assistida por Computador na GSTI

Nas aulas trabalha-se com computadores. Na GSTI todo o trabalho de casa das turmas de tradução é realizado através de processamento de texto. Todas as correcções são efectuadas por computador. Também são ministrados cursos, através de computador, de tradução assistida por computador e localização de programas (uma máquina por estudante).


Na GSTI a formação e o mercado andam de "mãos dadas", neste sentido todos os textos são "textos reais". São normalmente trabalhos levados a cabo pelos próprios professores de tradução ou fornecidos por colegas para verificar a sua terminologia. Todos os professores da GSTI são profissionais activos.


É muito difícil explicar o modo de funcionamento de uma "aula normal". A qualidade de ensino é a nossa maior prioridade. As aulas são orientadas para a aprendizagem, em detrimento da orientação centrada no estudante ou no professor. Quer dizer que existem cursos com um elevado grau de interactividade e com uma forte orientação por parte do instrutor. Os alunos são muito motivados e contribuem substancialmente para as actividades em aula.


Também quer dizer que os alunos normalmente trabalham em equipa consoante determinados parâmetros e projectos patentes no plano de estudo. Como é óbvio as dinâmicas do grupo variam de ano para ano e de programa em programa. Faz parte da natureza humana.


Contribuição de David Burton Sawyer, Instituto de Estudos Internacionais de Monterey
www.miis.edu



Jogo do BaFaBaFa

A turma I centra-se na tradução de Francês/Inglês, sendo geralmente os alunos uma mistura de anglófonos, francófonos e alguns nativos de outras línguas, estes geralmente mais identificados com os anglófonos do que com os francófonos.


Devido às tensões políticas que ocasionalmente surgem entre os dois maiores grupos linguísticos, já tive algumas vezes problemas de uma certa intolerância cultural entre estudantes de um grupo a respeito do outro. Sinto-me desconfortável com esta polarização dos dois grupos nas minhas aulas.


Houve um ano em que todas as minhas turmas (três nesse ano) jogaram este jogo do BaFaBaFa que tinha encontrado na biblioteca da universidade. Basicamente, divide-se a turma em dois grupos. Um grupo pertence a um tipo de cultura flexível; o outro pertence a uma cultura mais rígida. Ambos os grupos têm que aprender as suas culturas. Também determinam um "castigo" a aplicar àqueles que os ofendem, culturalmente falando, se se quebrar vários tabus ou qualquer coisa do género. Também têm que aprender um jogo de cartas. Para além de serem castigados, os transgressores geralmente deixam o jogo das cartas por um bocado.


Regra geral, as cartas são distribuídas para que cada grupo obtenha cartas do outro grupo para vencer. Primeiro observam o outro grupo e tentam perceber qual é a melhor forma de lidar com ele. Enviam emissários para a troca, no sentido de obterem as cartas de que precisam.


Apliquei o jogo em três grupos e com resultados variados. Para começar, o jogo de cartas era demasiado complicado e tinha necessariamente que o simplificar (acho que já ninguém joga cartas). Salvo algumas excepções, a maior parte dos alunos gostou do jogo.


A primeira turma que o jogou ficou de rastos. Os membros do grupo um adoptaram uma estratégia metódica de forma a registar tudo o que o outro grupo gostasse ou não, assimilaram de forma precisa as suas sensibilidades e "arrasaram" o outro grupo. Depois de num primeiro plano afirmarem que os membros do primeiro grupo eram "simplesmente esquisitos", o que de certa forma prova a questão acerca insensibilidade cultural, os do segundo grupo aperceberam-se de que estavam a ser ofensivos com os do primeiro, mas nunca se aperceberam qual era a causa.


Outra turma é da opinião que o jogo lhe abriu os olhos (este foi o meu grupo mais polarizado até à data). Os dois grupos desta turma tomaram a decisão de punir os ofensores, colocando-os no corredor virados para a parede. Decorridos dez minutos todos os membros de ambos os grupos tinham ofendido alguém do outro grupo (uma pessoa até ofendeu alguém do seu próprio grupo) e toda a turma estava no corredor. Como é óbvio, quando regressámos à sala tivemos uma acesa discussão.


Também já trouxe algumas vezes, para as aulas, material no qual trabalhei e que os alunos criticaram. (Mas normalmente só lhes digo que é meu depois de eles o ridicularizarem, pois quero que sejam honestos).


Outra coisa que pretendo fazer é utilizar muito humor. Falo de situações caricatas que me aconteceram (que tenham que ver com a tradução), de clientes com os quais trabalhei e que eram engraçados e de gralhas que cometi (Quero que percebam que a tradução pode ser uma tremenda piada).


Contribuição de Sheryl Curtis, Universidade de Concordia, Montreal, Quebec
www.concordia.ca



A PRÁTICA DA TRADUÇÃO LITERÁRIA

O Departamento de Tradução de Kouvola fornece aos seus alunos um curso de orientação em tradução literária. "A Prática faz o mestre" é o mote utilizado não só aqui, como em muitas outras áreas. No nosso caso, a prática disse que a maior editora finlandesa, a WSOY (Werner Söderström Osakeyhtiö) têm dado todos os anos aos alunos um livro para traduzir. - Os alunos de Aulis Ranatanen traduziram durante anos (e foram remunerados por isso - um pouco) cerca de trinta romances, na sua maioria histórias de detectives (por exemplo de Agatha Christie) e de suspense (por exemplo Dick Francis). No momento um grupo de alunos está a acabar a tradução de um livro sobre a história do norte de África (originalmente escrito em inglês), que será mais tarde publicado. Até ao momento já foram editados dezoito livros (Junho de 2001), dois manuscritos (em disquete) aguardam publicação e um outro livro já foi traduzido, mas ainda não está totalmente pronto. Para além disto, esses meus estudantes que queiram especializar-se em traduções que tenham que ver com o comércio internacional têm traduzido nos últimos 3/4 anos (para inglês), todos os relatórios internos de um banqueiro finlandês para distribuição internacional.


NO DECORRER DO PROCESSO

Regra geral, um aluno que pretende frequentar o curso já obteve o curso em análise estilística e um curso geral em tradução literária, para que ele, ou ela, saiba alguma coisa sobre os problemas mais comuns e as principais linhas de orientação. Houve algumas linhas de orientação geral, por exemplo a pontuação e o uso correcto, que Aulis Rantanen conseguiu do editor (o editor responsável pela publicação do nosso livro) e passou aos alunos.


Os alunos traduziram individualmente e sem ajuda um determinado excerto de texto (normalmente um capítulo), ou uma pequena história (se for o caso de uma compilação de pequenas histórias). Todo o trabalho foi discutido antes de se efectuar e também no decorrer da tradução.


Para obter a informação necessária para traduzir certas passagens os alunos por exemplo estabeleceram contacto com os peritos de determinadas áreas (por exemplo, entrevistam cirurgiões veterinários, comandantes de bombeiros, etc), consultaram livros de referência e, recentemente, utilizaram a Internet.


Encarregue de avaliar as traduções estiveram 1) o próprio tradutor/a 2) todo o grupo de seminário 3) o professor e, em último mas não o último, 4) o editor. Depois de os alunos entregarem as suas traduções, Aulis Rantanen trabalhou no livro sensivelmente 1 ou 2 meses, para quem o lesse não se aperceber que tinha sido traduzido por mais que uma pessoa.


ÚLTIMA APRECIAÇÃO ACERCA DA EXPERIÊNCIA GANHA

Uma cadeira semestral consistindo de uma sessão semanal (180 minutos de uma só vez) é muito pouco para traduzir um livro para editar, para não falar de o traduzir em grupo! Nos últimos anos a situação tem-se tornado mais fácil, devido ao facto de no seguinte semestre uma outra cadeira semestral (com sessões semanais de 90 minutos) ter sido gasta nos últimos retoques para a tradução original e esta última cadeira pode incluir "outsiders", por exemplo alunos que não fizeram parte do actual processo de tradução e que vêm o trabalho de um ângulo diferente. Apesar da curta duração do curso e apesar da inevitável ênfase atribuída aos erros, o lado negativo, e não ao lado positivo, regra geral os alunos consideraram que o curso valeu a pena. Têm a noção de que, depois do curso, não irão ser tradutores literários, mas pelo menos ficam com uma vaga ideia de como é o trabalho e também se apercebem de que a aprendizagem de um tradutor literário se baseia na prática.




Contribuição de Aulis Rantanen, conferencista, Universidade de Helsínquia, Departamento de Estudos de Tradução de Kouvola